16 Janeiro 2016      09:15

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OS GIRASSÓIS DE SAIGÃO

Cheguei a Saigão, que hoje já não se chama assim. Hoje é Ho Chi Minh. Cidade com o nome do fundador do moderno Vietname. Lembro-me e recorro ao nome Saigão à luz daquilo que escreveu Marguerite Duras. Nos tempos da presença francesa, uma história de amor n´O Amante.

Cheguei, à tarde, a Saigão, quase noite, no dia 17 de dezembro do ano que se acabou no dia 31. Cheguei ido de Singapura, onde toda a cidade se engalanava com os enfeites de Natal. Em todas as ruas de Singapura, luzes infinitas de cores tão brilhantes que, naquele calor e humidade imensos, nos faziam sentir o corpo envolvido em neve e frio como se o Natal fosse aquele que Sophia nos contava no seu Cavaleiro da Dinamarca. Caminhei nessas ruas dois dias e admirei, ostensivamente, os cantos, recantos, todas as lojas, todas as montras a mostrar a singularidade desta Singapura em que a construção da vida se faz dentro, em volta e a pensar em centros comerciais.

O avião aterrou em Ho Chi Minh e as letras, o sistema romanizado que conheço igual aquele que escrevo, invadiram-me a curiosidade em descobrir a diferença daquilo que via. A resposta, dada rapidamente por um qualquer motor de busca, deixa-me ainda mais surpreendido. Fora a mudança planeada e iniciada por Francisco de Pina, missionário português, no ido século XVII. Francisco de Pina morreu cedo e não terminou o seu trabalho de romanização da língua pela qual se apaixonou e conheceu profundamente. A sua tarefa seria terminada pelo seu discípulo Alexandre de Rhodes, jovem jesuíta francês. Olhando, as letras romanizadas, senti a proximidade iniciada pelo meu antepassado nestas mesmas ruas, ao abrigo destas mesmas casas.

Ho Chi Minh é o nome que lhe foi dado após 1975, homenageando o homem que começou por trabalhar como cozinheiro num navio francês e, visitando todo o mundo, se tornou no lutador anti-imperialista do Vietname. Notei que, em vietnamita, as pessoas continuam a chamar-lhe Saigon e é deste Saigon que quero escrever hoje. Que conheçamos juntos um pouco desta cidade grande que se liga ao grande rio Mekong e no qual poderíamos subir até às civilizações de outros tempos. O Vietname apaixona e não são só os girassóis que dão o nome a esta crónica. São essas ruas, essa ainda influência francesa que se espalha nos mais improváveis cantos da cidade, são as motorizadas aos milhares, são os recantos escondidos cheios de história. Diria que são as cervejas red saigon com as lulas secas grelhadas e saborosas que me fazem recordar o polvo seco grelhado das nossas feiras. Diria que são os sorrisos asiáticos cheios de história, antiga ou recente que, a cada um deles, me fazem lembrar o passado e ver o presente. Diria que Saigão é a sua catedral de Notre Damme, frente a uma estação de correios com a imagem do fundador da nação. Diria que Saigão é a Praça imponente onde o fundador olha para o rio e, atrás de si, é protegido por um edifício que ostenta a larga bandeira vermelha e amarela. Diria que é o centro financeiro que ele olha atentamente, ao longo de vários metros que desembocam no rio.

Todavia, Saigão é mais do que o trânsito caótico que não nos deixa sossegar um segundo ao atravessar as ruas, as travessas, as pequenas ruelas. É mais do que a soma de todos os semáforos. Numa rotunda gigante ao lado de um jardim, complexa, atenta aos carros e aos peões que já conhecem os gestos de atravessar, Saigão é o Mercado em frente. É esse bazar onde tudo se vende e compra, onde nos sentamos em pequenos bancos plásticos e pedimos o tão típico e saboroso café vietnamita. Ah, que saboroso esse café feito e servido na azáfama de um mercado que se reinventa dia a dia. Lado a lado, um talho e uma peixaria repleta de carnes, todas, e mariscos usados, logo de seguida, nas sopas que se misturam naquele como em todos os restaurantes, nas ervas frescas dos campos e que são, infinitamente, comestíveis.

No mercado, sentado a beber um café e a saborear um sumo de durião, essa fruta tão proibida, pestilenta e de cheiro funesto, mas tão saborosa… basta que separemos os sentidos e usemos apenas o paladar, nunca o olfato. Sentado no mercado, após negociar o cordão em prata e as sedas, uma pulseira olho-de-tigre, protetora infinita da alma. Saigão são os girassóis nas ruas, são as motorizadas, os infinitos sorrisos na balbúrdia de trânsito e uma intensa recordação de uma longínqua presença francesa no ar.

Saigão é Ho Chi Minh e é o Vietname na sua essência. É uma experiência a viver. Enquanto os enfeites de Natal, em todos os outros lugares nos fazem partilhar do mesmo registo, neste Saigão que ligeiramente conheci, são os girassóis que marcam as ruas e que me acompanharam. Foram eles, nos dois dias que nos conhecemos, que marcaram a partilha, minha, da minha e da nossa história, com a cidade que foi e é Saigão, no nome do seu fundador. 

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