30 Março 2020      10:53

Está aqui

O sonho, um encontro inesperado que revela o papel preponderante das crianças e a sua mensagem para o país durante a pandemia

Das causas aos efeitos, da propagação ao contágio, do drama à serenidade, dos constrangimentos sócio-familiares aos entraves profissionais, dos apelos ao incumprimento, assim tem sido a rotina ou a quebra dela, que todos os dias nos inunda os mais variados canais de informação. Estranhos tempos estes, onde um inimigo sem rosto aparece sem aviso,  nos coloca numa luta sem tréguas, como se do capítulo de um livro de História se tratasse. Com mais ou menos dramatismo, mais ou menos esperança, não há vivalma neste pedaço de terra à beira mar plantado, que não pense. Sim, pensar… Lembram-se? Nem para isso tínhamos tempo, de pensar em nós, de pensar no que nos rodeia, na família, em dar valor… essa característica que a bolha ofegante do dia a dia teimava em nos tirar. Estranho ser este, inimigo como o apelidam, que quebrando fronteiras, e de forma hostil,  vai mostrando ao seu alvo a consciência que este perdera.

Por falar em pensar, essa palavra que por estes dias também me acompanha (e a todos os pais certamente) numa verdadeira epopeia de emoções e estratégias para com os meus filhos. Li, reli, ouvi e pesquisei sobre como explicar de forma honesta, clara, simples e verdadeira como poderiam ser eles parte ativa e responsável nesta batalha, a batalha das nossas vidas. Esperamos que a noite caia, que mais um dia passe e que a minha forma positiva e optimista de estar na vida os bafeje para mais um sono sereno. Mas, com o nascer do Sol, voltam as dúvidas, a sensação de que falta dizer-lhes ou ensinar-lhes algo – e, lá estamos a pensar de novo, parece um sonho do qual queremos acordar…

…Há uns dias, por aqui, houve um sonho,  o meu sonho, com uma mensagem interessante. Parece estranho ter um sonho e nele imaginar outro:

- Pai, pai, tu que gostas de História quero contar-te o meu sonho – assim acordou o meu mais velho, ainda meio ofegante e de semblante confiante.

Curioso, prontamente lhe perguntei como tinha sido e, sentando-o junto a mim, ouvi atentamente o seu relato. Com entusiasmo e por já saber que se travava de um ensinamento, a irmã  juntou-se a nós.

- Ora bem, eu gosto de castelos como sabes. Apareceu-me num sonho um senhor, de traje antigo e com uma espada, era robusto e com bom aspeto! De início fiquei assustado! Disse-me que também tinha o meu nome e que estava no meu sonho para me ajudar.  Ah, e que tencionava aparecer nos sonhos de todas as crianças! Coisa estranha…

Tal como a irmã, também eu comecei a ficar ainda mais entusiasmado e não perdi tempo em lhe pedir para me contar que questões lhe tinha feito e porque era tão importante o senhor!

– Filho, mas o que tem isto de tão importante para a situação que estamos todos a passar? Diz-nos que perguntas fizeste, pode ser?

 - Havia muito nevoeiro, mal nos víamos. Quando se apresentou, disse que já tinha passado por muitas batalhas e que em tempos idos jamais percebeu que a luta entre povos e raças não seria o mais importante. Agarrado à sua perna, ainda que sendo um homem forte, parecia queixar-se de dor. Dizia ser um mal de outras lutas. Em seguida inclinou a sua mão no meu ombro e disse :

“Meu rapaz, no meu tempo pedíamos aos mais novos que lutassem, coitados… A vocês, só vos pedem que vençam a vossa batalha no seu lar, apenas isso! Que ajudem os vossos pais, confiem neles, porque vos vão ajudar também, uma vez mais. Sabes, nós nem grandes cuidados de higiene tínhamos…mas vocês têm que ter. Essa fase vai passar, e tal como as nossas famílias há muitos séculos, mantenham-se em casa para que os médicos e enfermeiros cuidem de vós. “

Por fim, pegou numa espada , era enorme, e na neblina despediu-se dizendo:

“Vós já sois uns heróis perante essa criatura, cumprindo as regras, mantendo a vossa disciplina e sendo corajosos!”

Confesso que após este momento acordei e não reagi, apenas consegui sorrir…Não obstante a força e conteúdo da mensagem num simples sonho e pela simplicidade do seu principal personagem, lá voltei a pensar, uma vez mais… Como foi um dos nossos “Egrégios Avós” aparecer neste sonho? Não sei, e provavelmente nunca saberei porque D. Afonso Henriques voltou para nos relembrar a importância dos cuidados a ter com as nossas crianças e a sua mestria em fazerem parte desta luta.  Não interessa, a mensagem passou, pois  fora um grande lutador, ainda que por outros motivos.

As crianças surpreendem-nos, quer pela sua resistência, quer pela sua capacidade de adaptação e reinvenção. São positivas por Natureza e nós nem sempre o entendíamos. Com tranquilidade, criança bem informada é criança segura e prevenida. Há esperança e vamos conseguir!

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