14 Fevereiro 2016      11:00

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A FÁBRICA DE PROVÉRBIOS

"TEXTURAS"

Máximas, axiomas, adágios, provérbios, ditados populares ou anexins, sempre os ouvimos, supostamente, desde a mais tenra infância. Infelizmente, no meu caso, por ter nascido e crescido no estrangeiro, aprendi poucos ditados populares portugueses quando era criança.

Quando, aos dezanove anos optei por vir para Portugal, apercebi-me de que ignorava grande parte dos provérbios portugueses. Assim, comecei já com um handicap essa minha aventura pelas letras lusas. E se creio ter superado a minha insipiência lexical, fiquei com esse calcanhar de Aquiles.

De facto, os provérbios, aprendem-se com o uso e são bastante caprichosos: só aparecem de vez em quando na conversa, cada qual usa os que conhece e bem entende e, frequentemente, existem várias versões do mesmo provérbio. Portanto, o caro leitor pode imaginar a minha dificuldade em dominar o assunto.

Fiquei, assim, com esta falha e reconheço que, hoje em dia, até me tem proporcionado a mim e a alguns dos meus interlocutores, bons momentos, dado que este meu handicap, pelo menos, permite-me, embora sem o querer, inventar outros ditados completamente novos e originais.

Mas, os provérbios, apesar de variáveis, são uma constante dos nossos enunciados e é evidente que estudiosos os foram coligindo ao longo dos tempos. Mas, essa realidade é insípida e não tem brilho… Como nascem os provérbios mesmo? Já o sabemos, mas não seria mais divertido imaginar que alguém os cria de raiz?

Eu prefiro imaginar que sim e que existe algures uma Fábrica de Provérbios, numa floresta verde e sombreada, em que trabalham afincadamente uns homens muito velhinhos, de barbas brancas, de óculos pequenos e de narizes afilados, fechados numa casa de madeira, atentos a tudo o que se diz e faz, criando assim as máximas e os provérbios a partir das experiências humanas, normalmente malogradas. Assim, ouvem, analisam e vão para casa onde forjam à mão as máximas que se aplicam aos homens, independentemente do seu estrato social. Pois, os provérbios alcançam toda a gente. De facto, são populares porque dizem respeito à totalidade do povo: o rico e o pobre, o velho e o novo, a princesa e a lacaia, ninguém é imune ao seu domínio.

Cria-se um provérbio cada vez que um filho não ouve o pai; quando uma vizinha é demasiado intrometida; quando um novato é demasiado pretensioso. E vão sendo sussurrados aos ouvidos da gente por esses velhinhos de barba branca, sempre à espreita nas esquinas das aldeias e das cidades por esse Portugal fora.

Assim, esses tesouros habitam na rua e toda a gente já os ouviu pelo menos uma vez, murmurados numa esquina, mas foi naquela casinha de madeira, onde os anciãos lavram os sulcos da nossa sapiência popular, que viram a luz do dia.

 

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