13 Junho 2018      14:05

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A Cimeira Trump – Kim Jong-Un a partir de Singapura: um testemunho no terreno

Em coincidência da concretização e participação na Conferência Internacional de Ciências Sociais e Humanas realizada no mesmo dia que a Cimeira Trump – Kim Jong-Un, terminei por ser convidado para abrir a sessão na qualidade de keynote speaker (orador principal) para além de estar previsto a exposição de uma análise sobre a situação internacional, concretamente ao reposicionamento dos Estados Unidos, da Rússia e da China nas relações internacionais. Do tema em apreço, realçamos a honra de recebermos o Award of Excellence (prémio de excelência) pelo tema apresentado que visava uma análise em profundidade e isenta de partidarismos, de manipulações de informação, de fakes news (notícias falsas), ou seja, de observar o que está realmente em jogo.

Contudo, estando em Singapura pude deter a oportunidade de em primeira mão ver em passagem ao vivo por diversas vezes quer o Presidente norte-americano quer o seu homólogo norte-coreano, verificando não só o reforço da segurança exigida a este nível como verifica algo da maior importância, sendo de facto individualmente imponentes, demonstrando vontade de solucionar, o que nunca sucedera de facto até à data. 

Aqui, anotemos vários aspectos que se prendem com a forma de projectar e de tratar a informação, onde a Oriente se procura o equilíbrio, a verdade, a prudência ou seja, o contrário daquilo que tem vindo a suceder a Ocidente, onde as fakes news e a manipulação da informação se tornaram numa realidade do quotidiano das nossas vidas tendo por objectivo a pessoa em si, por outras palavras, Trump, sem procurar saber em profundidade o que realmente está em jogo, como se sabe, em relações internacionais quando se entra no domínio da obsessão contra seja aquilo que for, deixa-se introduzir, por vezes, e, certamente, de forma automática, o fenómeno das fakes news. Ora, regressando à posição a Oriente, Trump marcou de facto pontos positivos, onde a imprensa local e de entre conversa com outros distintos colegas, se observou que haveria uma diferença substancial da informação veiculada. 

Procura-se não a obsessão do contra ou do a favor, mas, sobretudo, de observar todos os ângulos possíveis da aproximação da realidade observada sobre este tema da maior sensibilidade, porque como se sabe, havendo um escalar de conflito, quem incorre o risco de ser alvo de uma bomba nuclear não seria certamente a Europa, mas estes países próximos geograficamente da Coreia do Norte. Trump não só conseguiu sentar-se à mesa e dar um ponto de partida para um novo caminho, um novo percurso para uma solução, um novo capítulo do conflito na península coreana. 

Do resultado, não só existe um compromisso sério de se dar início a um processo de desnuclearização como também de restabelecer um novo processo de paz. Logo no dia seguinte à reunião, os dois líderes aceitaram visitar oficialmente cada um deles os respectivos países.

Muito se tem escrito a Ocidente com desinformação e algum grau elevado de não correspondência com a realidade ocorrida. Ora, é evidente quando a obsessão tomou conta de uma realidade, deixa-se de observar a outra, assim, por exemplo, muito se referiu que o Japão seria o perdedor, o que na verdade, e segundo informação oficial do governo japonês, é precisamente o contrário, pretende que se inicie rapidamente o processo e que seja firme, sabendo, evidentemente do risco de uma reviravolta, o que nas relações internacionais é uma situação a ser considerada pela sua certeza dentro da incerteza do mundo que nos governa. Outro ponto em discussão a Ocidente reverteu em matéria de direitos humanos, como se nunca tivesse sido abordado, ora esquecendo que nesta cimeira não se tratava de todo abordar em profundidade este tópico visto constar na agenda e no papel das Nações Unidas, Trump fez questão de incluir no ponto 4 da reunião, aqui referimos os pontos abordados: (1) desnuclearização da Península Coreana; (2) levantamento das sanções impostas à Coreia do Norte; (3) cessar os jogos de guerra que possuem um custo económico, sem sentido, elevadíssimo; (4) a questão dos direitos humanos e (5) retirar as tropas norte-americanas da Coreia do Sul. Como se pode observar mais do que isto seria impossível, ao contrário, ter-se obtido este compromisso assinado por ambas as partes representa um marco histórico sem precedentes na história daquela região.

Além disso, das notícias locais, muitas delas falam da necessidade de reverter a situação insustentável económica da Coreia, onde a China, já apelou à reposição da normalidade, para que a população deixe de sofrer em miséria humana. 

É igualmente verdade que este líder norte-coreano possui um regime fortíssimo e duríssimo, mas qual seria então a solução? Não negociar? Não tentar reverter a situação ou deixar alastrar incorrendo o risco de uma guerra nuclear onde milhões podem morrer? Ao que parece pelas sucessivas análises a Ocidente, esta cimeira nunca deveria ter acontecido por ser Trump, o que nos faz mergulhar numa contradição enorme. Por acaso, não são os mesmos que dizem que devemos negociar com terroristas? Então? Nesta cimeira, Trump e Kim compreenderam que haveriam apenas duas vias, a pacífica ou a guerra, evidentemente optaram pela primeira, o que levantou um tsunami de “raiva” e até de “ódios” sobre o sucesso da mesma, sendo, por conseguinte, difícil de compreender a sua razão a Ocidente, tendo a Oriente, considerado uma cimeira necessária, uma vitória que ficou para a história como o início da próxima etapa. 

Este processo tem de ser irreversível e completado, levando certamente os próximos anos, evidentemente ambos os lados estarão a observarem-se mutuamente. Os dois lados deverão demonstrar compromissos e negociações que levem também ao regresso da tropa norte-americana estacionada junto a fronteira, no famoso Paralelo 38, tratando-se de economizar milhões de US$ e não só, provocar o regresso de cerca de 32 000 militares ao território norte-americano pondo fim a um conflito que tem atravessado décadas desde a Guerra Fria e Coexistência Pacifica. 

Sobre toda esta matéria a Coreia do Sul evidencia prudência, apesar de demonstrar o total apoio a este compromisso para a região para traçar um novo caminho que permita da mesma forma relançar economicamente a Coreia do Norte, abrindo paulatinamente ao exterior e a investimentos que permitem modernizar e reposicionar numa nova era as relações internacionais. Porque gostemos ou não de Trump, ou de não ou aceitar a realidade actual, uma coisa é certa, Trump tem provocado uma mudança no mundo da qual ninguém estaria preparado ou sequer esperava. Importa denotar um compromisso de aqui se falou bastante, devolver aos Estados Unidos os pertences dos 6000 homens que faleceram aquando da Guerra da Coreia no longínquo ano de 1950-1953.

Neste contexto, Singapura foi escolhido por representar uma mais valia em todos os aspectos, desde o histórico à garantia de segurança absoluta, além de motivar e de possibilitar a Kim Jong-Un de estar numa cidade-Estado, das mais evoluídas e dinâmicas do mundo. Obviamente que isto tem a sua influência porque lhe toca no seu consciente e viu-se ao vivo aqui que por diversas vezes já fora do contexto da cimeira, diversas deslocações em visita às principais atracções turísticas e o seu à vontade, tendo até tirando umas selfies com a equipa que o acompanhava, incluindo uma caminha pela Marina Bay, o que seria impensável, mas aconteceu. 

Portanto, tudo isto marca uma nova era, uma nova fase das relações internacionais. A questão é, pode isto de repente mudar, sim, mas para já, tudo aponta para o início de um processo de desnuclearização total e mudança do jogo de xadrez, contudo, haverá sempre alguém que manifeste a sua oposição por ser Trump e não outro líder. Da razão, simples e objectiva de explicar: há quem tenha interesse em manter tudo igual e contribuir para a desinformação da sociedade civil. O outro problema é trazer para a informação, analistas que desconhecem o terreno e nunca tiveram a oportunidade de conhecer em profundidade os países em causa, como possuir/deter conhecimento suficiente em termos de domínio da temática, o que por si só não ajuda no esclarecimento à opinião pública, sendo infelizmente sistematicamente os mesmos. Anotamos, por último ,  que no nosso país temos excelentes profissionais que dominam determinados assuntos e que estiveram ou estão no terreno.

 

Nota sobre o autor: Marco António Batista Martins é Professor da Universidade de Évora e Director do Curso de Relações Internacionais da Escola de Ciências Sociais, igualmente investigador como membro integrado no Centro de Ciência Política (centro FCT com avaliação de Excelente) e colaborador junto do Instituto do Oriente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP). Doutor em Relações Internacionais pelo ISCSP e Auditor em Política Externa Nacional pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

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