14 Janeiro 2020      09:17

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“Bons” políticos, maus gestores

O governo acaba de fazer com mestria aquilo que sabe fazer melhor: gerir os parceiros desta geringonça informal. Não é razoável acreditar que não esteja há já muito tempo previsto o aumento extraordinário das pensões mais baixas, nem que os aumentos na função pública se fiquem pelos 0,3%. O que o governo fez foi dar o que era preciso dar para ver o orçamento aprovado na generalidade, guardando na manga as cartas necessárias para a aprovação na especialidade.

Os dois parceiros de esquerda não teriam como explicar votar contra este orçamento. Estariam assim a “fazer o jogo da direita”. Estão reféns do governo e o governo sabe bem disso. Aliás, a forma diferencial como lida com o PCP e com o Bloco também é sintomática. Vai usar cada um na exata medida da sua necessidade. Nem mais um milímetro de trela.

Os bons ventos económicos que sopram (resta saber até quando) servirão para pedir medidas de reforço do papel do Estado em setores fundamentais como a educação e a saúde: redução de 20% nas propinas das licenciaturas; redução no preço a pagar pelas creches; investimento em meios complementares de diagnóstico médico; e equipas de saúde mental e internamento psiquiátrico. Até aqui, o consenso é mais alargado.

BE e PCP pedem depois também medidas distributivas puras: reforços ao nível do subsídio de desemprego; e das prestações sociais em geral. Aqui, começam a descolar da realidade económica e financeira do país, e é aquele momento em que começamos a perder lastro para enfrentar futuras crises.

E, por fim, as propostas do sonho socialista de Estado todo-poderoso: exclusividade dos médicos no serviço nacional de saúde; e produção de medicamentos por parte do Estado.

Quanto aos restantes partidos: o PAN já se contentou com o IVA das touradas; o Livre é inconstante e por isso não leva nada; a Iniciativa Liberal pede o fim dos benefícios fiscais para os partidos e o reforço da autonomia para as entidades que fiscalizam a transparência e as contas, mas, não sendo este voto previsível nem fundamental para a aprovação de medidas na especialidade, é pouco provável que vejam as suas pretensões concretizadas.

Para terminar, há dois valores curiosos a reter. O primeiro é o dos 590 milhões de euros desaparecidos, que o primeiro ministro não só não explicou como ainda apelidou de “minudências”. Sim, nós, os portugueses, permitimos que estas coisas aconteçam sem nos indignarmos. Outro valor, mais pequeno mas pelo contrário apresentado pelo governo como um feito histórico e extraordinário, é o do excedente orçamental. Curiosamente, este é equivalente ao valor do aumento da carga fiscal. É caso para dizer que, com as calças do pai, este governo é um grande homem.

 

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