29 Março 2015      20:10

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UCRÂNIA

Oleh Symantsiv, era um aluno que pela sua fisionomia destacava dos outros; bastava olhar e facilmente se reconheciam as suas raízes de leste. Qualquer professor novo chamava Oleh, ao que prontamente respondia: “Pronuncia-se “Oleg”, num português tão perfeito como o ucraniano.

Aluno aplicado, atento e extremamente perspicaz, Oleh, natural de Ternopil, na Ucrânia, veio para Portugal aos 9 anos. Recorda-se de ter viajado durante dois dias e duas noites até chegar a Portugal: “Os meus pais, que já trabalhavam em Portugal, finalmente puderam trazer-me para cá.”

“Quando cheguei não percebia nada. Nos primeiros tempos, os meus pais aconselharam-me aprender o idioma com a ajuda do dicionário. Assim eu estudava 20 palavras por dia. Eu também tentava ver televisão em português mas não entendia nada.” – conta ao Tribuna.

Com o tempo, as barreiras foram-se dissipando e Oleh fez os primeiros amigos e já mantinha algumas conversas, embora se tenha sentido limitado quando se previa que falasse mais e executasse algumas tarefas.

Enquanto esteve em Portugal, em Reguengos de Monsaraz, jogou futebol no clube local, fez natação e jogou ainda polo aquático, atividades às quais juntava um sucesso escolar de relevo.

No 8º ano de escolaridade, os pais pediram a Oleh que escolhesse: Portugal ou Ucrânia?

“Era uma pergunta muito difícil dada por os meus pais. Eu pensei e hesitei muito. Aqui eu me sentia um rapaz feliz, com muitos amigos, estudava bem e sabia que sozinho posso atingir algo na vida. No entanto, eu sentia-me “outro” num meio dos seus. Eu queria voltar para a minha pátria, para o lugar onde nasci.”

Um dos professores de Oleh recorda a última aula: “O Oleh sempre foi um aluno aplicado e responsável. Detentor de uma excelente cultura geral e bom conhecedor e observador do mundo que o rodeava. Na última aula que tivemos prometeu-me que ainda havia de ser presidente da Ucrânia. Eu prometi-lhe que nesse dia visitaria o seu país.”

Ao chegar a “casa” tudo recomeçou. Voltou a aprender a língua (hoje já pouco fala de português novamente).

Escolheu direito, após o 9ºano, e passados três anos de ter regressado à Ucrânia, Oleh foi eleito Presidente do Conselho Estudantil da sua escola. Foi já neste papel que Oleh viu chegarem “tempos difíceis” – como lhes chamou – à Ucrânia.

Ao longo dos últimos anos, a Ucrânia tem feito um esforço em europeizar-se e integrar-se na União Europeia. No entanto, no final de 2013, o então Presidente da República, Viktor Yanukovych – por alegadas pressões de Moscovo - recusou-se a assinar a carta de Acordo de Associação e integração europeia da Ucrânia.

A população saiu às ruas para protestar e assim começou o “Euromaidan”, uma onda de manifestações pró-europeísta, encabeçadas especialmente por estudantes, onde se encontrava Oleh, que saiu às ruas em todo o país em protesto com a atitude de Yanukovych.

“Em todas as cidades do país, os estudantes iam para as praças municipais e protestavam contra a decisão do governo. Era o protesto dos estudantes, por isso o nosso colégio não ficou ao lado e todos os dias nós, sob a minha liderança, iam para lá. Participaram milhares de estudantes de todo o país.” – relata Oleh – “Começamos a sair e protestar contra as autoridades, contra o facto de elas não quererem uma vida melhor, mas sim pior ficando do lado da Rússia.”

Ao fim de algum tempo, o incómodo foi crescendo nas entidades estatais e a atitude face aos protestos tomou outra proporção: “Protestámos dia e noite. Uma dessas noites as forças especiais, sob as ordens do governo, bateram em centenas de estudantes e com as suas ações cruéis acabaram por matar várias pessoas. Mas eles nem imaginavam o que estavam a criar com essa atitude.”

No dia seguinte a esta atitude das forças da autoridade, em Kiev, a capital, a 419 km de distância de Ternopil, milhares de pessoas se começaram a juntar em protesto contra estas ações violentas do governo, contra o facto da recusa de Yanukovych em assinar a carta de Acordo de Associação e integração europeia e exigia-se já a sua demissão.

Os protestos duraram meses e a 22 de abril “aconteceu um dos eventos mais terríveis da história da Ucrânia”, a cumprir ordens do Governo, as forças da ordem dispararam sobre os manifestantes, matando uma centena de pessoas que ficaram conhecidos como a "Centena de Céu."

No dia seguinte, e após perceber que era o fim da linha, Yanukovych, Azarov e outros, “fugiram para a Rússia, onde estão escondidos até hoje” diz Oleh.

Poucas semanas depois a Rússia colocou tropas na Crimeia e tomou-a, realizando um referendo sobre a independência “sob a força das armas” e anexou-a ao seu território, apesar de nenhum país do mundo reconhecer esta anexação.

“Tentaram fazer o mesmo em Donbass, mas o novo governo da Ucrânia pôs em prática as operações antiterroristas, embora defender-se da Rússia seja muito difícil. Cada dia que passa enviam mais armas para armar os terroristas pró-Rússia nessas áreas em conflito. Felizmente é longe de Ternopil.”

O conflito está longe de ser resolvido e nem o recente cessar-fogo tem sido respeitado. Apesar das sanções impostas pela Europa e EUA à Rússia, esta continua a pôr em prática os seus planos e a “negar a evidência óbvia de seu envolvimento nesses conflitos.” - diz o jovem ucraniano que ainda assim deixa uma mensagem de esperança: “Podem esperar que um dia que a Ucrânia vai tornar-se um grande país. Afinal de contas, a Ucrânia tem tudo para isso: a sua própria história, campos férteis, tradições antigas e um povo unido. Espero que um dia o meu povo possa viver como vivem as pessoas em países civilizados, sem corrupção e sabendo o que os espera amanhã.”

Mas esta situação ucraniana, segundo artigo da Stratfor, do dia 19, com o título “A Rússia aponta à NATO na realização de exercícios militares”, não foi tudo o que a Rússia tinha para mostrar.

Os exercícios militares russos, os últimos de uma vaga ao longo do país, tomaram uma postura ameaçadora. Apesar não ter sido o de maiores dimensões, as áreas que estiveram envolvidas neste exercício e o tipo de forças presente mostram uma vontade deliberada em passar uma mensagem à NATO; o exercício em si parecia simular um confronto de larga escala com as forças da NATO, incluindo o posicionamento e distribuição estratégica de submarinos com armamento nuclear, mísseis e bombardeiros.

Os sistemas estratégicos de armamento, incluindo as armas nucleares, foram também deslocados, nos exercícios, para localizações perto das fronteiras NATO.

De acordo com declarações russas, o exercício espontâneo, que não foi anunciado antes de começar, a 16 de março, durou 5 dias e envolveu 45 mil homens, cerca de 3 mil veículos, mais de 40 navios, 15 submarinos e 110 aviões. Os sistemas que merecem mais destaque foram os que envolveram o veículo de lançamento de mísseis “Iskander” e a deslocalização dos caças para Kaliningrado, dos bombardeiros de longo alcance Tu-22M3 para a Crimeia (recém-anexado ao território – era parte da Ucrânia) e os submarinos com capacidade balística que forma enviado para o mar com escoltas de proteção.

A primeira declaração sobre o tema focou-se na atividade da frota do Norte, dizendo que o objetivo principal do exercício era testar a capacidade e organização das suas posições no norte, em Novaya Zemlya e em Franz Josef Land. A Rússia aumentou também a sua presença militar no Ártico e o exercício deixou claras as intenções russas para aquela região.

Esta parte do exercício parece até um pouco à parte do restante exercício e feita de modo muito mais evidente: as forças russas estão a ser transportadas pelo ar para as bases no Ártico e houve também lugar a exercícios navais, incluindo operações antissubmarinos e manobras de varrimento de minas, procedimentos típicos que precedem os ataques prévios de submarinos nucleares em tempo de crise.

Contudo, com a desculpa de os exercícios se realizarem no Ártico, a atividade militar estendeu-se até às fronteiras finlandesas; além dos referidos movimentos de tropas e estruturas, e reajuste de posições da frota nos mares Báltico e Negro. Todas estas manobras, associadas, mostram que se tratou de muito mais que um simples exercício por terra e exercícios navais no Ártico, dando azo a um enredo com ameaça nuclear à mistura.  

O movimento de veículos lança-mísseis e de bombardeiros são indicadores provocatórios de uma possível ação pró-ativa contra a NATO e países da Europa de Leste. Dadas as ações militares russas na Ucrânia, a possibilidade, apesar de improvável, de estenderem as operações a outros países não pode ser posta de parte. Por essa razão, e porque a Rússia desenhou este exercício em redor de um possível conflito com a Europa, os exercícios são razão suficiente para fazer tocar os alarmes europeus.

Ao desenvolver o bombardeiro Tu-22M3, a Rússia está também a evocar sem dissimular a ameaça de confronto nuclear. Considerando as declarações de Moscovo sobre o potencial deslocar de armas nucleares para a Crimeia, a Rússia está claramente a ligar a estas manobras militares as ações militares na Ucrânia e também as intenções russas quanto ao Ártico e a estratégia militar em questão.

A vasta área geográfica que este exercício cobriu atinge locais normalmente fora do alcance de outros exercícios levados a efeito pelos russos anteriormente. Parte, passou-se também em áreas onde a própria NATO tem realizado exercícios, incluindo os países Bálticos, a Roménia e a Hungria. Os exercícios mais relevantes da NATO tem sido comandados pelo exército norte-americano, com a chegada de mais militares, armamento e helicópteros para apoiar esses exercícios. A Rússia viu estes movimentos e o aumento do número de voos de vigilância e policiamento no Báltico.

Um exercício de estratégia militar, que inclui parte do exército russo, no Norte, no Báltico e com a frota do Mar Negro e movimentações a leste e nas regiões a sul, é notável. A Rússia, no passado, até já conduziu operações maiores, contudo, essas focavam-se essencialmente numa região militar ou uma frota específica, ou a combinação de ambas. Dirigir um exercício como o atual, numa área que vai desde a Noruega aos países bálticos, passando pela Polónia e pela Crimeia, aponta claramente à NATO e aos seus membros do leste europeu.

Considerando a tensão militar envolvendo a crise ucraniana e o seu frágil cessar-fogo, estes exercícios são um sinal agressivo, sobretudo se tivermos em conta que começou pouco tempo depois do súbito desaparecimento de Putin. A Rússia tem todo o interesse em mostrar os músculos da sua força militar para lembrar o mundo dos danos que pode infligir e para dissuadir, quem quer que seja, a tomada de ações mais radicais na Ucrânia.

Os Estados Unidos tem sido cauteloso nesta questão ucraniana, chegou mesmo a atrasar o deslocar de 300 tropas americanos para o leste ucraniano, como parte de uma manobra de treino. No entanto, os Estados Unidos mantêm o exercício como uma opção válida e podem levá-lo a efeito já no início de abril.

Por detrás da questão da Ucrânia, a Rússia está também a responder aos exercícios militares que têm sido realizados na Europa de Leste, onde a crise do país de Oleh fez soar os alarmes. Um aumento ritmado da atividade militar russa (quer no sentido do aumento das distâncias de voos estratégicos, quer em escala de exercícios militares), um aumento da presença da NATO e mais exercícios na Europa de Leste resultaram num ressurgimento de uma tensão e postura militar que remonta aos tempos da Guerra Fria.

Nesse contexto, os exercícios russos servem como ameaça às forças opositoras, demonstrando capacidades e sugerindo intenções. Mas estas manobras militares são importantes ferramentas para eles próprios também, pois estar pronto é um ponto muito importante na execução de operações e desenvolvimento de movimentações.

Além disso, os estrategas russos precisam de ter um real conhecimento das capacidades do seu exército. Não há melhor forma de obter este conhecimento que o realizar de operações com essas forças, ou parte delas, para determinar os parâmetros realistas.

Enquanto a Rússia testa as suas capacidades, mostra ao resto do mundo que tipo de operações e que áreas consideram estratégicas no seu planeamento da sua estratégia.

 

 

Pesquisa, tradução e adaptação de Luís Carapinha

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