2 Maio 2015      15:53

Está aqui

O MEDO

Às vítimas de violência xenófoba.

Vivi dois anos na África do Sul, na província de Kwazulu-Natal, entre 2007 e 2008, a ensinar português. Precisamente na mesma província onde os ataques xenófobos se iniciaram, despoletados por palavras, pelo eco de palavras que não entendo. Conhecendo já esta realidade e depois de ouvir as notícias sobre os ataques xenófobos que têm acontecido contra os imigrantes, especialmente os africanos, vindos de tantos sítios como Moçambique, Congo, Zimbabué, Quénia e tantos outros, penso na angústia e penso no medo e reaviva-se-me na memória uma história que conheci em tempos. Começava assim…

No meio das altas casas do medo e da incompreensão, no meio da noite cerrada, atrás de uma árvore ancestral, de flores púrpuras, um jacarandá, esconde-se um homem. Os seus olhos transpiram o medo que lhe corrói todo o sistema nervoso. Enclausurado entre os gritos ao longe, as chamas alheias que não respeitam etnia, credo ou opinião e o frio da noite escura, de uma noite de inverno em chamas. Os seus olhos transpiram medo, num tom pálido tão carregado de sofrimento como de adrenalina, os seus olhos raiam-se de vermelho e fogem da esquerda para a direita, da direita para a esquerda.

O vento afaga o jacarandá, mas os seus olhos enchem-se de medo e não se acalmam com o pânico. Entre o temor do som e das luzes, das chamas ardentes que se avolumam e o escuro que parece não acabar, numa distância que parece ser paralela ao continente africano, os olhos não se acalmam. O homem não consegue suster a respiração ofegante. Na sua mente passam mil imagens, mil sons de uma promessa feita em português, em suaíli, em zulo, em tswane, em chosa, em inglês. O homem vê passar-lhe todos os sons de uma promessa, todas as letras de um papel que se transforma numa tinta encarnada.

Ao longe, os ruídos indefinidos de um som, os gritos de ódio e intolerância que não entende o outro, que o outro não entende. Às vezes, uma palavra solta um infinito de gritos, às vezes uma palavra destrói os sonhos que teimam em não nos abandonar. As palavras quando ditas são balas que não se travam, são flechas que disparadas envenenam a pele e se fundem nos tecidos calejados da dor, do tempo e do som volátil dessas palavras. As palavras são ruído. Mas, as palavras deviam ser compreensão, abraçar o outro no meio do silêncio, emprestar uma vela, uma bengala para caminhar, sem que deixem vencer-se pelo medo. As palavras deviam criar casas, construir alpendres e abrigos, deviam ser tijolos para abrigar os que lutam por si. Nem sempre as palavras são…

Escondido atrás de uma cor purpura tão forte e carregada, o homem pensa em si, no medo que teima em não o abandonar e lhe corta as pernas. Pensa nos metros, pensa nas casas, pensa nos momentos em silêncio em cada autocarro para não ser reconhecido. A cada passo, em cada árvore esconde-se, agacha-se, tem medo. São os seus irmãos, aqueles cujas palavras são diferentes das suas, aqueles que o olham mas não o querem ver, que lhe prendem os gestos de perdão, os gritos de clemência.

Ainda mais longe, lá do outro lado, onde a esperança se esconde, esperam duas mulheres, uma de rosto maltratado pelo sol e outra, mais jovem, em lágrimas que agarra com força as duas crianças que choram. Lá, nesse lado, as palavras avolumam-se tentando abafar os gritos que se ouvem cá deste lado. As crianças olham com temor. Têm nos seus olhos os medos de seu pai que é escondido pela mãe. As palavras que deviam chegar não chegam. O silêncio dói ainda mais do que as palavras.

Os ruídos ameaçadores das palavras deram lugar ao barulho forte de motores, aceleração que acompanha o palpitar do coração do homem. O homem não está sozinho, estão outros consigo que não ousam trocar falar as palavras. Todos fogem, todos guardam na memória a rua daquela cidade à beira mar, a multidão a aproximar-se, a navalha a palpitar tão forte como o coração. Os homens estão encurralados numa rua longínqua que não tem fim. A cidade torna-se pequena demais para todos. Vieram a salto de outras terras, mas não encontraram aqui a sua casa. A memória do homem, perdido no meio dos prédios, entre as casas do medo, recorda o passado, tenta apagar o pedido de clemência do homem que falava a sua língua ao outro que não ouviu, que não quis ouvir e nunca ouvirá, nas imagens que lhe ficaram gravadas no olhar. A navalha cortou todas as palavras.

Recordam-se mas não falam disso. Ninguém fala no caminho do medo. Na mão, ao ombro, um saco gasto, sujo do pó vermelho desta terra. Lá dentro, tudo e nada que restou e que o medo deixou caminhar com os homens. A luz que esperam, ao fundo, aproxima-se mais veloz do que os homens atrás e os ruídos dos carros. Os homens correm já empurrados pelo medo e pela esperança, numa simbiose estranha. Alcançam o fim da cidade, e olham para trás. Será a última vez. Entre as luzes intermitentes, há um carro que os espera.  

Há, deste lado, um barulho mais forte que se cala. Já não há medo. Há o alívio dos homens que falam a mesma língua, os olhos vermelhos enchem-se de lágrimas e, em casa, as mulheres sentem que o medo já não caminha com os homens. As crianças param o choro e adormecem embaladas nos versos cantados das duas mulheres. Os homens caminham direitos e apressam-se para chegar a casa.

Acabava assim…

               

 

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