1 Junho 2015      11:33

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MEDIUM

O jornalismo está morto. Ele teve uma morte horrorosa diante dos meus olhos. Talvez tenha sido atropelado, não sei, mas acredite em mim, eu pude ouvir seus suspiros finais, passei por ele lentamente, fotografei sua agonia na calçada, o rosto confuso, o corpo enrolado em um jornal cuja manchete dizia “Morre jornalismo”. Não era um desejo, era uma notícia direta e sem vírgula, página inteira anunciando a passagem para a outra vida. Olhei para a data da capa e vi que o jornal era de hoje, mas o jornalismo já estava morto há dias (vi na Internet).

Eu sou jornalista faz alguns anos — tenho 34, e posso dizer que comecei, oficialmente, aos 14, quando editei meu primeiro impresso: um informativo de folha única chamado O Botequim, que eu distribuía nos restaurantes, bares e lojas da pequena cidade onde nasci e me criei. Eram anos vibrantes aqueles (escola, piscina, futebol, videogame). Tão vibrantes que eu repetiria a oitava série por conta de minhas atividades extra-curriculares — jogar fliperama e ouvir Guns n' Roses na casa de algum amigo. A escola sempre me atrapalhou.

Ela tinha um muro bem alto, era tenso pular lá de cima. Eu imaginava minha morte todas as manhãs ao fugir de alguma aula, pescoço quebrado no asfalto: “Aluno morre”. Todo mundo saberia pelo jornal. Coitada da minha mãe. Alguém me ajuda.

Aquela época passou e eu nem vi. Quando tirei o pé do chão lá no alto do muro era 1994, eu vestia uma camisa de flanela vermelha e preta e ouvia Nirvana em um walkman de duas toneladas que consumia um jogo de pilhas por manhã, rodando fitas K7 até que a voz de Kurt Cobain parecesse destroçada por calmantes. Quando meus tênis tocaram a calçada lá em baixo a manchete datava de 2002, eu vestia uma camisa jeans e ouvia blues em um iPod. Tudo tinha mudado, menos o jornal. “Morre jornalismo.”

Eu até chorei um pouco quando o jornalismo morreu. Pensei nos anos que passamos juntos e lembrei daquela música que diz que “os bons morrem jovens”. Sou da última geração de jornalistas que começou na profissão antes que ela fosse revolucionada pela Internet. Não existe uma data precisa pra marcar essa virada, mas na minha manchete imaginária estamos em 15 de janeiro de 2009, quando o avião US Airways 1549 fez um pouso forçado no rio Hudson. Em poucos minutos, a foto do acidente estava no Twitter. A notícia não havia sido dada pelo rádio nem pela CNN, paradigmas do tempo real. Estava no Twitter, no mundo todo, instantânea, grátis, ilustrada. Depois daquilo, tudo aconteceu rápido.

Muito rápido.

Em 2006 eu trabalhava em um portal de notícias que era obcecado pelo furo — ao menos por um conceito estranho de furo. Costumávamos publicar a manchete sem a notícia, vazia, apenas para marcar a hora. “Morre jornalismo.” Publish. Depois escrevíamos um parágrafo e atualizávamos o link, outro parágrafo e outra atualização, e assim por diante. Era uma espécie de montadora de notícias. Edit, publish, edit, publish, edit, publish. Eu me sentia batendo martelo em vez de teclados. A qualidade dos textos era, claro, baixa. Foi assim que demos “Morre jornalismo” antes de todo mundo. A matéria gerou uma imensidão de cliques. “Veja fotos. Veja vídeos. Ouça a mãe. Leia a matéria do repórter-cidadão. Enquete: você também já morreu? Envie a foto do seu caixão!”

Ajudei a matar o jornalismo com meu trabalho como martelador de notícias. Tenho sangue em minhas mãos. A qualidade da imprensa decaiu não só nos novos portais, mas também nas empresas que costumavam produzir bons conteúdos. Elas foram empurradas para uma armadilha mortal chamadaviews, a quantidade de gente que clica em cada notícia.

Mais rápido, mais impactante = mais views = mais anunciantes.

Parecia uma fórmula perfeita até todo mundo se dar conta que nenhuma empresa séria consegue manter o ritmo sem denegrir o próprio conteúdo. Sem matar a própria história, pouco a pouco. Porque o anunciante tradicional não se importa com o conteúdo: se dez milhões de pessoas acessarem qualquer site, uma porcentagem delas comprará aquela geladeira anunciada na barra lateral. É só isso o que importa. E nenhum site que se diz “de jornalismo” conseguirá bater o dinofauro da vez.

O Jornal do Brasil, um clássico onde fiz diversas pesquisas para o meu livro, derreteu. Outros estão por aí, tentando entender o que fazer enquanto enxugam redações.

Não existem respostas prontas para o futuro imediato do negócio, mas acredito que muitas delas estão nas mãos dos artesãos, de quem está começando do lugar mais interessante e retomando para si o que o jornalismo abandonou: a reportagem.

O que as redações tradicionais estão aprendendo com iniciativas jovens, menores e focadas no que realmente importa? Em 10 anos, quem estará fazendo jornalismo de verdade? Quem estará contando as histórias que as pessoas querem conhecer?

Que o jornalismo morreu todo mundo já sabe (minha mãe compartilhou no Facebook). A manchete de amanhã precisa dizer que um novo jornalismo nasceu.

Leandro Demori é jornalista, escritor e editor da Medium Brasil.

Artigo original daqui.

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