28 Julho 2015      10:29

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A ENCRUZILHADA GREGA PARA O FIM DO EURO

«Todos nós podemos errar, mas a perseverança no erro é que é loucura», Zenão de Cítio, Grécia Antiga.

 

Esta citação retirada de um reputado filósofo da Grécia Antiga pode ser uma moeda atirada ao ar, em que no seu anverso se mostra a “loucura” do governo Grego da estrema-esquerda do Siriza e de Tsipras, seu comandante-mor, e no reverso a insensatez e frivolidade da atual Zona Euro pelas exigências feitas ao país helénico. E, apesar da tentação pessoal me orientar para determinado juízo, gostaria de, realçando pontos de fricção de ambas as partes, esboçar os pessoais receios, pessimismo mesmo, sobre fim da moeda única. Num ápice colocaria a questão da seguinte forma: pode o Siriza de Tsipras pôr a tónica no discurso repetitivo e enrodilhado da inevitabilidade reestruturação da dívida e teimar na ausência de medidas/ reformas necessárias para iniciar um processo cadenciado de diminuição de défice público, de eficiência administrativa e de revitalização económica? Do outro lado da barricada, poderíamos questionar a UE e neste campo concreto, a Zona Euro se é suposto insistir-se numa receita que se não mata o doente, deixa-o debilitado por muito tempo? Ou se é mesmo utópico pensar em aceitar na reestruturação da dívida grega?

Os dois campos antagónicos nos últimos meses decidiram reforçar as suas diferenças. Do lado do dito governo helénico da extrema-esquerda do Siriza houve um rastilho de agressividade política no discurso nunca antes vista sobre os seus parceiros europeus, e ainda quem acuse, uma total ausência de medidas e reformas desde o início do ano onde a taxa de desemprego parecia ter-se estancado e a economia com ligeiro crescimento, parecendo desejar a inversão deste estado de coisas, apenas e só para justificar a sua política ideológica da obrigatoriedade de reestruturar a dívida. No epicentro da decisão europeia, parece ter havido um discurso muito musculado, onde imperou a intransigência, a surdez e sobretudo alguma arrogância perante os anseios gregos. Entretanto a extrema-direita europeia rejubila com o cenário apresentado.

Aparte das respetivas legitimações, concordo com o Eurogrupo quando diz que no presente momento o busílis desta grave situação é a confiança, ou a falta dela, melhor dizendo. Não uma mera falta de confiança dos restantes 18 membros do Eurogrupo no Governo da Grécia e na melhor condução desta tragédia europeia, mas já uma falta de confiança do mundo na resolução deste aparente insuperável problema, e logicamente por arrasto criando uma instabilidade política e económica neste fechado grupo de elite, que outras potencias mundiais, por motivos diversos e divergentes, parecem desejar, tais como Reino Unido, EUA e Rússia. Já nem falo da possível falta de confiança dos mercados perante a dívida ad eternu que se instalou alusiva ao Grexit. Os grandes blocos económicos vivem, tal como os mercados financeiros e bolsistas da confiança que cai sobre eles. Se se abre uma exceção sobre regras e normas previamente definidas entre os elementos desse bloco, poder-se-à estar a abrir uma caixa de pandora sobre o fim desse mesmo grupo. Sinceramente não sei se consta do manual político do Siriza, enquanto partido radical de extrema-esquerda a defesa da desintegração europeia, da retoma do dracma, do fim do vigente modelo económico que singra na UE, se apenas as suas aparentes contradições resultam somente impreparação deste partido para tamanha epopeia, no entanto nada mais voltará a ficar igual. A Grécia deu efetivamente uma lição à Europa, não sei se será a tal de Democracia de que falava Tsipras no rescaldo do referendo, se uma de pensamento político e europeu, tão necessário em tempos de crise existencialista da construção europeia. Provavelmente o Grexit será uma inevitabilidade dada a fragilidade da conjuntura grega e com ele poderão cair outras nações, Portugal incluído.  Poderemos ver dias amargos do Euro, se não mesmo a sua queda, no entanto parece-me que se há outra ilação a tirar destes episódios, chamemos-lhe dores de crescimento, é a da irreversibilidade da União Europeia, não apenas como bloco económico-financeiro, como espaço amplo da discussão, do consenso nas conclusões, mas também do respeito da diferença das suas nações integrantes, e como amparo no Mundo da Democracia, dos Direitos Humanos, da Paz, da Tolerância, do Progresso e da Ciência. Certamente que esta encruzilhada ditará não o aprofundar e alargar desta União a novos países ( se lição houve com Tsipras, é que a Turquia e povos muito díspares dos modelos do centro-norte da Europa jamais poderão aderir à UE pois seriam mais elementos divergentes do que convergentes da evolução europeia), mas essencialmente dirimir as questões mais fracturantes que existem nos atuais Estados-Membros. E à semelhança do descrito no anterior artigo também aqui escrito, intitulado «Uma Europa anquilosada» haverá mais espaço para a criação de políticas concretas de diplomacia económica e política europeia, da resolução da trágica dialética em torno dos refugiados do Mediterrâneo, do sanar da guerra na Ucrânia,  do repensar numa nova política de auto-suficiência alimentar, da discussão assente na necessidade de criação do exército europeu e demais reforços numa união mais económica e mais política. Estes reforços de poder e autonomia podem ser muito suscetíveis de discórdia na atual UE, no entanto parece-me que o que a Grécia nos deu hoje foi o tiro de partida para o início desse dossiê. E se pode ser verdade afirmar que a Grécia deu uma machadada final no Euro, paradoxalmente parece justo dizer que acabará por reforçar a vindoura União Europeia.

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